Ritu.1/Penetra!

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Ritu.1/ Penetra! se trata da primeira ação performativa da série de rituais de trans-i-[ação] que a artista Manfrin vem elaborando em paralelo ao seu processo de transição hormonal.

Nesta sequência de ritos, a artista traz para uma releitura travesti a tragédia grega de Sófocles que narra o ocorrido depois da primeira peça da trilogia, a desgraça parece ter sido o legado deixado por Édipo aos seus quatro filhos (Etéocles, Polinice, Antígona e Ismênia). Com sua partida para o exílio, os filhos lutaram pelo poder e chegaram a um acordo de revezamento no comando a cada ano. No entanto, Etéocles, que foi o primeiro a governar, ao fim do mandato, não quis ceder o lugar do poder ao irmão Polinice, que revoltado foi para a cidade vizinha e rival da grande Tebas, aliou-se traçando assim uma vingança ao irmão tirano.

 

Ali, reunindo um exército aliado, Polinice enfrentou o irmão visando ao trono de Tebas. O conflito acabou com os dois se matando e, então, quem assumiu o poder  foi o tio Creonte, irmão de Jocasta, esposa de Édipo que também morreu na primeira peça. E é após a perca de dois irmãos, acrescida da perca do pai e da mãe, que inicia a trajetória de Antígona travesti em nossa releitura. Essa mulher despossuída de família, mas que luta para poder seguir a tradição.

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No início da obra de Manfrin, semelhante á dramaturgia de Sófocles, Antigona deseja realizar os ritos fúnebres de ser irmão Polinice, dito como traidor. No entanto aqui Antigone também é Polinice, ela é o irmão morto. Como diz a cantora Lin da Quebrada em sua musica XXXX “Eu matei o junior” Antigone deseja enterrar o corpo que ela mesma matou. No entanto o que aqui ela reivindica é o direito ao rito a esse corpo, que a priori, todos dizem que devem putrificar em praça pública, ou seja, não merece nenhum respeito.

 

No caso, esse corpo que dizemos é da traveti antes de sua transição. Neste primeiro ritu, Manfrin deseja sim se hormonizar para ser outra, mas exige que sepultemos seu Polinece com todas as honras que a tradição ensina. Ser travesti não é similar a odiar seu passado e seu próprio corpo. Antigone deseja que este corpo penetre a socidade com os mesmos rituais que os outros penetraram.

...

 

Penetra[ação] é desejo de pertencimento, de fusão. Adentrar-se. Ser recebida ou invasiva. Penetrante. Abusadora. Antigone deseja que Polinice receba os ritos e seja recebido pelo deuses. Manfrin deseja se hormonizar para ser aceita pela sociedade como uma mulher, para ser amada como uma mulher. Esta performance narrativa, experimenta a fricção entre vida e arte que um corpo pode propor, e o que poderemos assistir, em segurança, são os respingos dos berros pornográficos. Não há erotismo. Não há corpos nus.

 

É uma pornografia travesti. Não há ação, mas sim uma narrativa trágico-performativa de trans-i-(ação). A inércia nunca foi um pioneirismo, talvez um portal que permeia o processo de ver. Este diário duracional aberto é um manifesto pelo direito de fazermos com nossos corpos tudo que desejarmos.

// FICHA TÉCNICA

Manfrin: Criação, Direção e Performance // @manfrinmanfrinmanfrin 
 
Serafim do Mundo: Res Design de Luz // @s3rafimdomundo
 
Marina Gatti: Design de Luz // @marinagatti_
 
Amarilis Vitale: Trilha Sonora  e Cantora // @amarilismusic 
 
Pedro Cunha Vituri: Guitarrista da Trilha Sonora 
 
Julio Aracack: Fotografia // @julioaracack
 
Camila Brito: Cabelo // @realezanegra 
 
Ginger Moon: Maquiagem // @gingermoondrag
 
Carola Gonzales: Assessoria de Imprensa // @micelio.gonzalez
 
Natalia Gomides: Assessoria de Mídia
 
Karen Sobue: Produção Executiva // @karensobue  
 
Flora Mesquita: Assistente de Produção // @risoflorah  
 
Cauane Nogueira: Assistente de Produção // @pretajajah

Fotografia: @bernochi
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Fotografias de @bernoch.